quinta-feira, 12 de março de 2015

Mercy


Cartola nos fones de ouvido e lágrimas nos olhos. "Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir pra não chorar. Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer, quero viver" dizia a música. Dizia também seu pobre coração, apertado, cansado, mas ainda querendo pulsar junto a outro. Outro este que se encontrava dentro de uma fortaleza tão protegida que toda vez que ela tentava chegar perto saía machucada. "Me deixa entrar" gritara ela nos portões da fortaleza nas primeiras vezes que havia tentado adentrar tal construção. Hoje em dia ela só pedia para que ele tivesse misericórdia e não a machucasse mais, já estava ficando sem forças para lutar com a dezena de soldados que sempre vinham lhe impedir de passar. "Misericórdia, eu imploro".

quarta-feira, 11 de março de 2015

A paz de um abraço



        Enfim eles se abraçaram de verdade. Depois de meses. Ela não entendia como poderia gostar tanto de um abraço, mas gostava. Era tão reconfortante estar nos braços dele e se sentia tão em paz que queria ficar lá para sempre. Era o encaixe ideal, ela cabia perfeitamente no seu abraço. Lembrou-se de quando seu primeiro melhor amigo lhe envolvia nos braços, a segurança que sentia neste era semelhante a de anos atrás, semelhante a daquele abraço que nunca mais havia sentido. Durante os minutos em que se abraçaram ela fechou os olhos e fez um pedido. Mesmo que não fosse crente em religiões, milagres ou coisa que o valha. Mas ela acreditava em destino. E se este o havia colocado em seu caminho, deveria ser por algum motivo. Talvez fosse apenas ensinamento, e se assim fosse, logo ele seguiria seu caminho para um lado diferente do dela, pois de aprendizados ela já estava cheia, ainda mais com ele e tudo que lhe envolvia. Por outro lado, não queria perder para sempre aquele abraço. Já havia perdido coisas demais nos últimos tempos. Seu pensamento girava em torno de uma só questão: Valeria a pena lutar por esse abraço?

Descongelar

        Não acreditava ser verdade o que estava acontecendo. Seu coração pulsava saltitante novamente. Sentia o sangue fervendo passar por suas veias. Ficava aflita, nervosa, sem graça, até ruborizava! Justo ela, que antes não ruborizava por nada... Só podia significar uma coisa, ela sabia bem.
        Embora tivesse completa consciência do que estava se passando, preferia não acreditar. Escondia isso a todo custo, de si mesma e principalmente dos outros. Ninguém poderia saber que seu coração de gelo estava outra vez se aquecendo. Não depois de tudo que havia passado. Não depois de tudo que havia conquistado.
        De início havia se entregado, mas fez de tudo para que fosse passageiro. Lutou contra o fato com todas as suas forças. Tentou esquecer e finalmente conseguiu. Durou pouco tempo. Logo estava de novo se entregando, mesmo contra sua vontade. Era mais forte do que ela. A guerra contra o sentimento estava perdida. Seu coração não era mais de gelo. Depois de tantos anos, a paixão havia conseguido lhe pegar de novo.

Cicatrizes

Chegou do trabalho cansada, havia sido um dia longo, como todos estavam sendo naquele mês. Comeu alguma coisa, viu um pouco de televisão e foi tomar banho. Antes de se vestir ficou encarando sua imagem refletida no espelho. Mas não se via como um todo. Estava analisando partes específicas de si própria. Algo que ia muito além da imagem do espelho.

Ficou olhando suas cicatrizes.
Cicatrizes físicas e psicológicas.
Eram tantas.
Tantas histórias.

Tinha suas tatuagens, que não deixavam de serem cicatrizes, mas de algo que ela queria lembrar, algo que valia a pena estar marcado no corpo. Só que além dessas, tinha as que ela mesma havia feito e queria mais do que tudo apagar. O passado nem sempre havia sido bom. Sempre haveria aqueles momentos da história que ela faria de tudo pra esquecer
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Maira Gall