quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Justiça

  Como podemos nos entregar para outro ser humano por inteiros, corpo, alma e coração sem nem poder exigir algo em troca? "Não é justo!" pensou Valentina. Não é justo eu te amar e tu não me amar de volta. Não é justo que enquanto eu sofra, tu estejas sorrindo com outro alguém. Não é justo, apenas não é justo. Queria poder me livrar de ti para sempre, mas cada vez que penso na hipótese meu coração dispara, alardeando que não é o certo a se fazer. E fico eu nesse impasse, entre mente e coração, e é tão grande a minha dúvida que acabo por não fazer nada. Não luto para te ter, mas também não penso em te esquecer. Como pode ser possível achares que outra pessoa consiga te amar tanto quanto eu te amo? Logo eu, a pessoa que se entregou por inteira -corpo, alma, coração e talvez até a vida- para ti?

Possuir

Te tenho aqui comigo
num lugar desconhecido
Não sei se mente ou coração,
um espaço indefinido

Tão nobre é este te ter
que me entrego por inteira
Sou mais tua do que minha,
quase nem me pertenço mais

E nesse recíproco ter
escrevemos nossa história
para ter no futuro
algo para guardar na memória

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Existir

A aparência que Valentina havia adquirido nos últimos tempos era pavorosa, sombria. Estava cadavérica, as antes vermelhas maçãs do rosto estavam agora pálidas. Não comia mais, não dormia mais, não saía mais. Seus cabelos negros e compridos faziam sua pele parecer ainda mais branca. Os olhos haviam perdido o brilho e agora passavam os dias inchados, de tanto que chorava. Seu sorriso, antes alegre e cativante havia se transformado em uma carranca séria, ou muitas vezes sem expressão alguma. Nada mais lhe fazia sentido, nada mais lhe era importante, a não ser seus poucos amigos. Muitas vezes almejou que os poucos fossem nenhum, para assim então poder partir em paz, pois jamais conseguiria fazer algo que fosse magoá-los. Talvez uma parte dela tivesse de fato morrido e era por isso que ela vivia a se perguntar: "Devo eu continuar apenas existindo?"

domingo, 18 de novembro de 2012

Socos

A tua palavra
dói bem mais que a minha ação
Ela dói bem lá no fundo
do meu coração

Amor ou morte?

Ela quis morrer de amor
pois a disseram que continuaria vivendo
Pobre menina tola
achava saber onde estava se metendo
Entregou sua alma ao diabo,
mal sabia que estava, de fato, morrendo

"O inferno me parece bom", disse
Jamais admitiria que estava sofrendo
Queria parecer forte,
era uma pena que não estava mais nem parecendo
Então, no verão, junto com suas rimas,
a pobre menina tola, de amor acabou falecendo

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Lá por 1997

 Saudade do tempo em que tudo era fácil e que todo mundo se amava, ou pelo menos fingia muito bem... Uma imagem muito simples vem à minha mente enquanto digo isso. Um churrasco. Lá por 1997, ou algum ano perto, quando eu ainda era uma mini-Deds. Um projeto de churrasqueira no meio do mato, mesas e bancos em madeira rústica, pintados com tinta vermelha e branca, árvores, grama, mato, um projeto de mini-piscina ao lado do açude, onde todos se refrescavam. Vejo sorrisos, crianças correndo e brincando muito felizes -uma delas era eu- por todo aquele campo, conversas, pessoas felizes, comemorações por nada, alegria. Não são reais memórias minhas, mas de alguma fita cassete ou de fotos antigas que vi alguns anos depois.
 A casa não tinha muitos luxos, mas para nós era o suficiente para vivermos e sermos muito felizes naquele lugar. Então eu me pergunto, para onde foi toda essa felicidade? Onde foi que, no caminho, as coisas ficaram tão tortas e erradas a ponto das pessoas não se falarem mais? Não sorrirem mais? Não só no conjunto todo, mas nas pequenas unidades dele também.
 Agora se tem uma churrasqueira grande e bonita, mesas e bancos de verdade, uma grande piscina térmica, TV de muitas polegadas na sala, internet, dentre outros luxos. Ninguém mais usa o projeto de churrasqueira, os bancos e mesa de madeira rústica devem ter ido fora ou sido queimados, a mini-piscina está seca há anos, ninguém mais entra nos açudes. E a felicidade? Os sorrisos? As pessoas conversando e se amando sem motivos especiais? Acho que foram embora junto com os bancos de madeira ou com a água da piscina.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Férias #1

       Acordou, esfregou os olhos e arrumou o cabelo. Ainda se acostumando com a claridade pode ver que estava em um lugar onde nunca estivera antes. Pelo chaveiro em cima da mesa de cabeceira pode perceber que estava em um hotel, "Natural Mystic" estava escrito ao lado do desenho de um beija-flor em um hibisco, algo bem praiano, combinando com o que se lembrava da noite anterior. Teve certeza que ainda estava na praia quando colocou sua cabeça para fora da janela e enxergou a bela pria da Ferrugem. Sua cabeça doía e nada parecia fazer muito sentido. Como havia chegado ali? A pergunta não parava de ecoar nos pensamentos de Melissa. Ouviu o chuveiro ligar-se e rezou para que fosse alguém conhecido. Conforme foram passando os minutos, as memórias foram surgindo em sua mente.
       Lembrou-se quase perfeitamente do luau na praia, de ter entrado no mar com Cassie, Sophie e Alícia vestindo apenas roupa íntima, de ter corrido atrás de Diego e Matheus a areia e em seguida ter rolado nela com eles. Fora uma bela noite, pensou. Muita música, muitas risadas, e principalmente, muitas bebidas. Não lembrava ao certo como tinha ido parar naquele quarto, mas lembrava-se vagamente de ter ido até o hotel acompanhada de Diego, Cassie e Matheus. Esperava que um dos três saísse a qualquer momento daquele banheiro, mas não tinha certeza se gostaria de saber quem seria. Ao afundar a cabeça no travesseiro tentando afastar os pensamentos ruins, ouve uma voz, aquela voz.
?: Bom dia, Melissa
       Não, não, não, não! Não podia ser real! O que ele estava fazendo ali? Por que? Como? O que mais estava esquecendo? Queria que qualquer pessoa saísse daquele banheiro, um zumbi, o Papa, a Madonna, QUALQUER UM, menos ele!
M: T-thomaz?! O que tu tá fazendo aqui?! - Disse com a maior cara de espanto possível.
T: Calma Mel, não preisa ficar com essa cara de quem viu um fantasma! Eu não passei a noite aqui, tava no quarto da Clarissa e da Nathalia ali do lado, mas elas me expulsaram pra se arrumar, tomar banho e toda aquela coisa chata de mulher... Então eu vim pro quarto do Matheus incomodar ele e aproveitei pra tomar banho... Jamais ia imaginar que tu ia estar aqui
M: Nem eu... Onde tá o Matheus ein? E porque eu não to no meu quarto com a Cassie? Quando acordei nem lembrava que hotel a gente tinha escolhido pra passar as férias, fiquei super deslocada... O que a gente bebeu ontem hein?!
T: Vish, de tudo um pouco, eu acho... Bom, digamos que o teu quarto tava indisponível pra ti porque o Diego foi passar a noite lá... Se é que tu me entende... Então o Matheus te trouxe para o quarto deles...E agora ele foi tomar café da manhã, se quiser ir encontrar ele.. Eu acho que vou ficar por aqui esperando as gurias...
M: É, acho que vou preciso esclarecer algumas coisas na minha mente...
       Arrumou rapidamente os cabelos em um coque e rumou para o salão onde serviam o café. Chegando lá encontrou Matheus sentado sozinho em uma mesa na rua, fumando um cigarro e tomando um café. Sentou-se na cadeira ao lado, envergonhada e esperou que ele começasse a conversa.
M: Bom dia, Mel, dormiu bem?
M: Er... Dormi...
M: Tá tudo bem? Tu parece meio estranha...
M: T-tá... Digo... Math, eu não lembro nada depois de chegar no hotel... Tu poderia refrescar minha memória? O Thom me disse que não pude ir pro meu quarto por causa do Diego...
M: Ah, o Thomaz! Desculpa, eu ia te acordar e dizer que ele ia ficar por lá, mas tu parecia estar sonhando, que fiquei até com pena de te acordar...
       Melissa bufou.
M: É, podia ter me acordado né? Tu sabe bem como é a minha relação com ele! Não imagina o susto que eu levei quando vi ele saindo do banheiro.
M: Sério Mel, foi mal. E sobre ontem... Bem... Tu não lembra de nada mesmo?
M: Lembro de estar vindo para o hotel, lembro da gente na recepção pegando as chaves e depois lembro de me atirar em alguma cama, mais nada.
       Matheus olhou para o café, hesitando alguns instantes antes de responder, ainda sem olhar nos olhos de Melissa.
M: Então... Mel... A gente chegou no quarto, e sim, tu te atirou na cama, muito bêbada... Logo em seguida eu me atirei junto... E digamos que tu tava bem afim... Como eu também estava meio alto... Não neguei né...
       Melissa passou de branco papel para vermelho pimentão em questão de segundos, não sabia se corria para longe ou se enfiava embaixo da mesa.
M: S-sério?!
       Ao ver a expressão incrédula de Melissa, Matheus caiu na gargalhada e revelou a verdade.
M: Não Mel, a gente deitou, ficou conversando por um tempo e depois caiu no sono, podres. Relaxa.
M: Matheus! Que ódio! Não faz mais isso comigo! Juro que se tu fizer isso de novo alguma vez, vais perder a amiga!
M: Sério, tu precisava ver a tua cara! Capaz que eu ia fazer algo contigo naquele estado né? Antes de tudo eu sou teu amigo, não faria algo contigo que tu fosse te arrepender depois.
M: Obrigada... Não sei o que faria se fosse verdade...
       Seguiram conversando até que aos poucos todos os outros foram juntando-se à eles. Cassie, Diego, Clarissa, Nathalia, Thomaz, Alícia, Rafael e até Sophie, junto com seu ex-atual-namorado-de-novo. Depois de terminarem o café, Thomaz, como sempre o mais exibido da turma anunciou:
T: Aí, gente, vão todos se arrumar, em trajes de banho de preferência, encontro vocês em meia hora na frente do hotel. Tenho uma surpresa pra vocês na praia.
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